Requerimento no COUNI pede Eleições Paritárias para Diretores-Gerais

Leia na íntegra o requerimento procolado no COUNI para eleições paritárias em 2017 ->

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Carta Aberta à Comunidade da UTFPR sobre a extinção da Assessoria de Assuntos Estudantis

Magnífico Reitor da Universidade Tecnológica Federal do Paraná,

Ainda que às portas tal notícia não tenha sido veiculada oficialmente, é pesaroso saber que a conquista de uma Assessoria para que nesse Gabinete existissem estudantes com suas representações esteja em vias de ser extinta.

Devo lembrá-lo que a Universidade também é de seus pilotis formadores, dos estudantes nos diversos níveis de formação, e nas diversas formas de expressão. Essa assessoria de dimensões mirradas, por vezes esquecida nas reuniões de cunho gerencialista foi a única decisão bem quista do derradeiro reitor.

Ainda que escandalizada durante os anos de 2015 e 2016 por erros e acertos da gestão, sem dúvidas, acredito no seu potencial formador como um canal de comunicação entre os mais vulneráveis no processo educacional, os estudantes, e a mesa diretora da Universidade.

São muitas as especulações acerca de vossa decisão, e por isso não quero aqui tecer comentários prolixos por meras “possibilidades”. Devo me ater aos fatos e expor quais razões sustentam a manutenção do único órgão que hoje é retrato da assistência estudantil, do atendimento à permanência na Universidade e de bons resultados na formação para a cidadania, o respeito étnico e racial.

Enquanto retrato da assistência, mesmo escandalizada nos últimos anos como já mencionei, parece na figura do atual assessor encontrar um caminho seguro para ao menos dialogar de forma direta com as representações estudantis. A construção coletiva é sempre o melhor caminho a ceder. Em menos de dois meses, de forma inédita, alunos ouviram e foram ouvidos por uma assessoria que submeteu-se à apreciação dos seus assegurados.

O compromisso com a equalização de oportunidades e a priorização das comunidades tradicionais indígenas e quilombolas adquiriram sopro vivificador nas últimas semanas por meio do regulamento do auxílio estudantil, documento que há de garantir o planejamento e a manutenção dos programas de permanência na Universidade Tecnológica Federal do Paraná.

Sem isto o que me sobra?

Com a extinção da Assessoria a Pró-Reitoria de Graduação e Educação Profissional retomará o controle dos recursos da assistência estudantil, bem como os programas já adiantados. A inexperiência do órgão frente a esse compromisso acelera um desgaste da Lista Unificada, como instrumento de distribuição dos recursos do auxílio estudantil e toda uma agenda estrutural para um orçamento cada vez mais participativo.

Grandes massas de servidores e alunos se mobilizam em torno dessa Assessoria que não sendo o melhor, tem sido o mais seguro. A Universidade submeterá a segurança dos programas de assistência estudantil a pró-reitores que nunca tiveram um compromisso com essa demanda? Será o Magnífico Reitor outro derradeiro, que não havendo consciência se submete ao desespero?

Já atestou Pero Vaz de Caminha: nessa terra, tudo que se planta nasce, cresce e floresce, até o que não presta. Deixe o que é bom florescer.

Curitiba, 06 de novembro de 2016.

Gestão P@vão: um DCE para ser lembrado

Pode-se dizer que o bom combate foi vencido. Nunca na história da UTFPR câmpus Curitiba o Diretório mobilizou tanto o respeito da sua base formadora como do gabinete do reitor.

Em menos de dois meses de gestão mergulhou a universidade no processo democratizador por meio das Assembleias, do diálogo, da ruptura do mimetismo, e da demonstração do que é um movimento estudantil vivo e forte. Infelizmente a ignorância depôs a razão, esse foi o retrato do Conselho de Entidades de Base, que não perdeu apenas a chapa mas a sua credibilidade em todas as instâncias. É o triste conflito que promove a miopia de estudantes ‘acomodados’.

Um fato é inegável, essa gestão entra para a história como a de politização do estudante.

Horas antes de entregar as chaves, a diretoria recebeu mensagens de professores, técnicos administrativos, representações sindicais, gestores e conselheiros. Deu uma goleada na transparência e na firmeza com que conduzia sua pauta eleita.

Um dos membros, que ainda mantém laços em outras instâncias deliberativas da UTFPR lembrou: “O DCE é apenas uma condição, estou DCE não sou DCE, por isso a luta de verdade continua no campo da retórica, no dia-a-dia, coisa que o pessoal do contra não entende e nunca entenderá por uma única razão, a própria limitação moral, e até em parte diria que intelectual”.

Outro membro salienta: “Decidimos assumir o rojão em um momento em que queriam colocar catracas na Universidade. Fizemos diferente, valorizamos a ação extensionista e demonstramos que a Universidade é fruto da comunidade”.

Recebeu ainda mensagens de apoio de outros DCE’s Paraná adentro. E não poderia deixar de revelar as mensagens bordadas no mural de avaliações pelos próprios estudantes nos últimos meses, algumas selecionadas a seguir:

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Deixo como agradecimento à memorável gestão o poema Cântico Negro de José Régio, símbolo de um povo que torce, verga mas não quebra.

“Vem por aqui” — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: “vem por aqui!”
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali…
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos…
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: “vem por aqui!”?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí…
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?…
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos…

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios…
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: “vem por aqui”!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou…
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

 

Carta Aberta à Comunidade Acadêmica da UTFPR

Assunto: PROCESSO nº 13/2016 do Conselho Universitário da UTFPR

 

O Diretório Central dos Estudantes da Universidade Tecnológica Federal do Paraná campus Curitiba, após analisar a matéria acerca do Processo nº 13/2016 que propõe a alteração no quórum qualificado para a aprovação de mudanças estatutárias e regimentais da UTFPR, apresenta, como subsídio à análise do egrégio Conselho Universitário da UTFPR seu entendimento e suas conclusões acerca de tais alterações no ato regimental máximo dessa Casa.

Semper flamma fumus proxima est.

Onde há fumaça, há fogo.

Provérbio Romano

O Estatuto e o Regimento Geral da Universidade Tecnológica Federal do Paraná, fruto dos processos participativos após intensa luta dos estudantes pela redemocratização nacional, podem ser modificados consoante o exposto na Deliberação nº 08/2008, de 31 de outubro de 2008, na Deliberação nº 11/2009, de 25 de setembro de 2009, do COUNI, e no Artigo nº 208 do Regimento Geral da UTFPR. Nesses casos é previsto que para ocorrerem alterações estatutárias deve haver consenso positivo à modificação de ⅔ dos membros do Conselho Universitário.

Atualmente esse é o único instrumento que permeia a representatividade universitária no processo de tomada decisória, ainda que o COUNI não possua representação de todas as classes por embustes históricos em que os estudantes se colocam versus aos  atropelos da Reitoria da UTFPR e, por vaidade dos gestores, são penalizados. Os ⅔ votantes garantem parte da livre manifestação ainda que cerceada de todas as formas na última década pelo gabinete do reitor. Desta forma, tal modificação é de espírito duvidoso e temerário pois retira do egrégio Conselho o direito de representatividade e voto. O espírito duvidoso se manifesta, com maior propriedade, por se tratar de uma decisão a ser votada aos trancos por convocação extraordinária realizada no dia 11 de novembro do corrente ano, em plena véspera de feriado sem tempo hábil para a análise de uma matéria tão fundamental.

Na “chama” do momento, a pauta da reunião do COUNI do dia 18 próximo, prevê a alteração das deliberações de quórum mínimo para que não mais ⅔ do número total de conselheiros seja necessário para as modificações regimentais, mas sim ⅔ dos membros presentes, o que abre precedentes para que reuniões “relâmpago” se tornem moda, em caso de interesses particulares, para modificar o estatuto com qualquer número de conselheiros presentes.

O processo nº 13/2016 do COUNI propõe o impensável a assume sobre si a culpa dos processos pouco participativos quando supõe que reduzindo o número de votos necessários para alterar o Estatuto e o Regimento Geral resolverá seu imanente problema de conselheiros, por suposto, faltosos.

Se existem conselheiros faltosos e baixo quórum no COUNI, como pressupõem o processo, não há que se falar em reduzir o número de votantes, e sim há que se discutir porque ainda não foram aplicadas as penalidades previstas no regimento máximo do Conselho. Deve-se discutir ainda porque os estudantes da graduação, da pós-graduação e representantes dos alunos egressos não podem assumir sua cadeira de direito nos debates deste Conselho, tendo o Grêmio Estudantil César Lattes obtido por determinação legal sua parte nos assentos. Seria a Universidade Tecnológica Federal do Paraná menor diante da grande maioria das Universidades públicas no Brasil que possuem a representatividade de estudantes no Conselho Universitário? De modo algum.

Senhores Conselheiros, pedimos que garantam sua profissão de responsabilidade para com a comunidade acadêmica e, consoante a inexistência de uma estatuinte adequada para tal modificação, que se faça um bom debate antes de realizar uma votação apressada, com toda a comunidade acadêmica acerca do disposto no processo nº 13/2016.

A história não esquecerá daqueles que falharam com a democracia.

Curitiba, 17 de novembro de 2016

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Diretoria de Assuntos Acadêmicos do DCE da Universidade Tecnológica Federal do Paraná campus Curitiba

No aniversário de 25 anos do SINDUTFPR os Professores firmam compromisso com os Estudantes e a Educação de Qualidade

Alaúdes e pandeiros! Chegou na festa a PEC 241 e a conta caiu na mesa do trabalhador. Entre marchas e tamborins o projeto de Emenda inibe os investimentos progressivos no desenvolvimento da educação superior.

Transitados 11 anos, a partir do PROUNI – Programa Universidade ara Todos, e 9 anos do REUNI – Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão nas Universidades Federais, o governo federal decide estagnar os gastos primários por pelo menos  9 anos.

Segundo a economista Maria da Conceição Tavares, ex-militante da Unidade Popular do Chile, a proposta prevê  um estado de constante recessão econômica, uma vez que se propõem a estagnar, corrigido pelo IPCA, o gasto primário ainda que o Estado eleve a arrecadação.

Nas universidades públicas ou privadas o projeto significa reduzir as ações de inclusão étnica, social e racial pela falta de apoio estrutural de investimentos. A situação amplia seus agravos quando se trata de Universidades que realizaram grandes investimentos na ampliação e agora correm o risco de fechar muitas portas, reviver prédios vazios e a juventude no abandono.

A PEC estabelece um regime de exceção econômica e penaliza Poderes e órgãos que não cumprirem a meta com a retenção de concursos públicos, estagnação da remuneração de servidores, e a não contratação de novos servidores, condição sine qua non para a expansão do sistema educacional.

Ainda, o descumprimento da meta poderá implicar, no próximo ano, no corte da renúncia de receita, instrumento esse que concede bolsas do PROUNI.

No jantar de comemoração de 25 anos do Sindicato dos Docentes da UTFPR, os professores salientaram o significado da pauta e reafirmaram o compromisso público da Seção com a educação superior pública, gratuita e de qualidade.

Na festividade, os docentes reiteraram que as lutas históricas tratam-se de um compêndio de classes, entre eles os Sindicatos, os Professores e os Estudantes. Neste contexto, é importante a mobilização conjunta para existir a força e a criatividade em um momento tão difícil da história.

Mais uma vez a história dá aos Professores e aos Estudantes o papel de colocar o Brasil nos eixos da plena cidadania, afinal, foram as mobilizações conjuntas dessas classes que nos devolveram o direito ao voto e à democracia.

Vida longa ao Sindicato dos Docentes da UTFPR e aos Estudantes nas suas marchas cotidianas!

Documentário da UTFPR discute a Inclusão Étnica e Social

Moço, não abro mão dos meus direitos
Eu também tenho o meu conceito
No universo da criação
Mentes são dotadas de virtudes e poder
Basta abrir as portas verá florescer
Um mundo, onde a magia formas os ideais
E o saber, não se difere por camada sociais
É hora de reflexão
E consciência em cada coração

Educação: Um salto para o Futuro  –  Por Paulo Freire

Leandro de Itaquera (1999)

O Brasil acordou com manchetes conhecidas. O PMDB assume a presidência sem o voto popular direto, o leite de pacote está na moda e o Palmeiras ocupa o topo do campeonato brasileiro. Não! Não estamos no ano de 1993.

A lista de medidas do governo federal promete cortar em 47% o orçamento das universidades públicas federais, seguida pela “otimização da relação empregado e empregador”, com “contratinhos” que permitem maquiar a impressão da falsa empregabilidade, com férias e 13º salário proporcionais aos dias trabalhados.

A conciliação de classes parece que não foi uma jogada certeira. O republicanismo só dá certo no Congresso Nacional, no chão de fábrica o soneto é outro. Continuamos na espiral do tempo e o samba enredo ocupa a avenida para contar o momento.

O “pacote de bondades” de Michel Temer, coloca em risco  a autonomia invocada na Carta Magna por uma falsa tutela.

Lembrou o ex-ministro e professor da USP Janine Ribeiro, o fla-flu PT e PSDB acabou, é hora de rever onde estamos na espiral do tempo e quais riscos são certeiros.

Nestas horas, o que se pode esperar de uma universidade que estava em vias de construir um projeto plural? Em que os historicamente excluídos pela ciência e pela tecnologia conseguem pela primeira vez  afirmar sua existência e adentrar os espaços pela equalização de oportunidades?

O documentário “A Marcha da Inclusão” invoca esta e outras questões que apresentam o contexto institucional nas universidades brasileiras, com ênfase na Universidade Tecnológica Federal do Paraná, e apela para o futuro.

A matéria, organizada e dirigida por componentes do Programa de Educação Tutorial em Políticas Públicas, reúne professores, alunos e especialistas do setor educacional, dentre eles a Doutora em Política Científica Nanci Stancki da Luz, o Doutor em Sociologia Lino Trevisan e a militante Nabylla Fiori.

A doutora em psicologia Maria Sara de Lima Dias ressalta números acerca do perfil do egresso da UTFPR e acusa, em partes, a ação excludente direta dos professores em sala como um agente complicador da afirmação da inclusão étnica e social.

A Doutora Nanci, ressalta ainda a dependência da política de cotas com a realização de ações objetivas como investimentos, mas também subjetivas como a manifestação popular.

O documentário, exibido na íntegra durante a X Semana de Políticas Públicas, conclui com a fala do homenageado Paulo Freire. Freire foi intenso defensor da universidade para as classes mais vulneráveis em troca da cultura classista excludente.

 

 

 

 

 

 

O Darcy de Lispector

Entrevista concedida pelo educador Darcy Ribeiro em 1977 para a jornalista Clarice Lispector. Publicado em  Clarice na cabeceira: jornalismo. 1º edição. Rio de Janeiro: Rocco, 2012. 

 

É autor de uma dúzia de livros sobre as desventuras dos índios desde que os brancos chegaram a este país.

Mas agora está estudando uma tribo muito especial: a dos brasileiros. (Atenção, ele já foi ministro da Educação.)
Darcy Ribeiro nasceu sob o signo do Escorpião numa cidadezinha do centro do Brasil que hoje – diz ele – só existe em seu peito: Montes Claros, Minas Gerais. Quis ser médico porém acabou antropólogo. Como tal, conseguiu uma vez um emprego que lhe proporcionou, segundo sua própria expressão, os melhores anos de sua vida. Dormia em rede nas aldeias indígenas do Amazonas. Mais tarde se tornou professor, num esforço para formar melhores antropólogos. Um dia o nomearam educador e, nessa qualidade, projetou um novo modelo de universidade para Brasília.
Mas, afinal, o que faz um antropólogo? Há muito tempo, fiz um curso pequeno de antropologia, mas não prestei atenção nas aulas porque tinha outros interesses; os interesses de uma adolescente. Darcy Ribeiro agora me explica:
“Um antropólogo, Clarice, estuda gente. Zoólogo estuda bicho. Entomólogo estuda percevejo, suponho. Eu estudo as pessoas: gente comum e também índio, negro africano. Tudo que é gente me interessa: os brasileiros, os franceses, os xavantes, os guaranis.”

– É possível misturar francês com xavante? Dá pé?
Claro que dá. O difícil é concluir alguma coisa porque não se pode tirar média. Mas tudo dá pé. Inclusive inglês com sergipano. Eu estudei índio durante anos. Depois peguei os povos americanos. Atualmente, com base naquelas experiências, estou estudando nós mesmos, os brasileiros.

– Porque você quis estudar índios?
Não há quem estude borboletas? É para saber, ora. Formei-me em São Paulo. Podia ser historiador, mas não gosto de velharias. Podia ser também sociólogo, mas naquele tempo ninguém sabia o que era isso. Não havia emprego de sociólogo. Então, apareceu um lugar de etnólogo no Serviço de Proteção aos Índios. Aceitei. Muita gente pensou que eu ia era amansar índio. Não ia, não. Fui dos primeiros brasileiros que se meteu no mato para estudar. Antigamente chamavam a gente de naturalista. Quase todos eram geólogos, botânicos e, em sua maioria, eram estrangeiros. Etnólogo mesmo, profissional e brasileiro, fui o primeiro. Contrataram-me para estudar etnologia indígena, que é apenas um ramo da antropologia. Há outros. Paleontólogos estudam fósseis de antepassados comuns dos homens e dos macacos. Raciólogos medem gente de todas as raças para descobrir-lhes as semelhanças e diferenças. Arqueólogos estudam tribos ou civilizações desaparecidas. Linguistas descrevem e comparam as línguas faladas no mundo. E os etnólogos estudam os costumes dos povos atuais. Os mais rígidos ficam só na especialidade: são fanaticamente paleontólogos, arqueólogos, etnólogos. Os mais flexíveis fazem antropologia, visando melhorar a qualidade do conhecimento que existe sobre os homens em geral.

– Você é fanático ou…
Eu sou ou… Pode ser até que eu seja um antropólogo ruim. Mas não. Modéstia à parte, não sou dos piores. Escrevi uma boa dúzia de livros. Destes, uns oito estão à venda, em cerca de 30 edições feitas no Brasil, Portugal, México, Argentina, Venezuela, Espanha, França, Itália e Alemanha.

– De que tratam esses livros? O que contam ou explicam?
Os primeiros retratam minha experiência de campo nas aldeias indígenas, tanto no Brasil Central como na Amazônia. Uns são de etnologia, propriamente. Por exemplo, meu estudo Religião e mitologia Kadiueu, uma tribo lá do Pantanal, ou Arte plumária Kaapor, uma tribo do Pará. Outros, também etnólogos, são de análise e denúncia das desventuras dos índios que toparam com os brancos. Por exemplo, Os índios e a civilização. Este livro está sendo muito traduzido por aí…

– Você chegou a conviver com os índios selvagens, nas aldeias deles?
Passei um tempão nisso. Vivi deitado em rede ou acocorado em esteira de índio, conversando, observando, anotando, pelo menos a metade dos dez melhores anos de minha vida.

– Foi tão bom assim?
Sempre que se fala de ir para os índios, para o mato, para a selva, o pessoal fica pensando em cobra, onça, malária, flechas e outros riscos. Que nada! Sei que não é um passeio, mas é uma beleza. E foi com os índios que aprendi a ser antropólogo. Assim como médico aprende a ser médico com os clientes, depois de formado. Só que nunca matei ninguém…

– Por que, então, você saiu para outra? Gostando tanto daquela vida, gostando tanto de índio, podia ter ficado na etnologia.

É. Podia. Mas o que me atazana mesmo é estudar esta tribo mais exótica e mais selvagem que somos nós, os brasileiros. Essa é a tribo que me interessa. Um dia, Anísio Teixeira me chamou para estudar a sociedade nacional, com vistas ao planejamento educacional. E eu aceitei. Não me arrependi. Promovi uma quantidade de estudos sobre a vida urbana e a rural, sobre a cultura popular, a industrialização e a urbanização. Nesse caminho, tornei-me educador. Acabei incumbido de criar a Universidade de Brasília. E criei mesmo. Mas fui adiante. Cheguei a ser ministro da Educação.

– Darcy, fale mais sobre os seus livros. Os que estão vivos por aí, correndo mundo.
Bem, os meus principais livros foram uma série chamada Estudos de antropologia da civilização. São cinco volumes e somam mais de mil páginas. Quase todos foram publicados no Brasil. O primeiro deles, O processo civilizatório, é uma tentativa de reconstituir os caminhos da evolução das civilizações, de uma perspectiva nossa, de povos marginalizados, dependentes. Seu tema é a análise das causas de nosso desempenho medíocre dentro da civilização industrial moderna e do risco, em que estamos, de continuar sendo povo de segunda classe na civilização que vem aí.

– São livros muito lidos?
Muita gente leu esse livro, Clarice. É o meu único livro de êxito popular. Venderam mais de 170 mil exemplares, em inglês, espanhol, italiano, alemão e português. Também pudera: faço um resumo de 10 mil anos de história em 200 páginas. O segundo volume daquela série é As Américas e a civilização. Um painel do processo de formação dos povos americanos. Escrevi tentando entender – e ajudar os outros a compreender – as causas do desenvolvimento desigual dos povos americanos. Por que a América do Norte, colonizada um século depois de nós, está um século adiante em tanta coisa? E como é que povos pobres, que nem nós, podem custear a riqueza de povos ricos?

– Você está se arriscando a falar em política?
Não, é apenas antropologia. O terceiro livro da série ainda não está publicado no Brasil, embora tenha várias edições no estrangeiro. É O dilema da América Latina, um estudo da composição das classes sociais dos nossos países que serve de base a uma tipologia dos nossos regimes políticos. Tudo isso é antropologia e da boa: ciência positiva do que o homem é e especulação humanística do que poderia ser, se tivesse juízo. O quarto livro é mais ortodoxo, chama-se Os índios e a civilização. É um balanço científico e apaixonado do que sucedeu aos índios brasileiros no curso de século XX. É uma história muito feia. Eu mostro que em 1960 haviam desaparecido 87 das 230 tribos que existiam em 1900. Não por assimilação, ou incorporação, como se diz por aí, mas simplesmente extintas pelas enfermidades, pela opressão e pela pobreza a que foram e são submetidas, em nome da civilização.

– Seria melhor estudar borboletas ou colecioná-las. Ou então você poderia não ter tanto trabalho e tanta paixão e cultivar orquídeas… E o último volume?
Ainda estou batucando: Os brasileiros. Até agora só publiquei a primeira parte, chamada A teoria do Brasil. Faltam duas outras: O Brasil rústico e O Brasil emergente. Espero ter tempo (e gana) para escrever os dois. Na verdade, os outros quatro livros da série são apenas uma longuíssima introdução a Os brasileiros.

– Você não acha péssimo para nós essa história de dizer que são vivos os livros só porque estão à venda?
Acho. Mas eu vivo disso, e você também. O que nos interessa a glória que nos tributem lá pelo ano 2000? Seremos menos que pó de caveira.

– Também não me interessa nada do que a posteridade diga de mim, se é que vão dizer alguma coisa. E fora dessa série, que é que você tem publicado?
Bem, tenho alguns livros que prezo. Um é A universidade necessária. Uma utopia da universidade que tento há anos cristalizar nas diversas universidades concretas que já projetei ou reformei aí pelo mundo. Outro livro, é Uirá, uma coletânea de artigos de etnologia indígena. Inclui a história real e fantástica de um índio que saiu à procura de Deus. E acabou mal. Morto. Comido por piranhas. A história foi filmada por Gustavo Dahl.
Pois é, Clarice. A tentação me roía há anos. Não resisti. E gostei muito. Foi um barato meter num enredo o meu sentimento de gozo de viver e da tristeza que é ser índio neste mundo. Creio também que escrevi um romance para ser intelectual.

– Eu sou romancista e não sou intelectual…
Só os romancistas são intelectuais… Agora, como romancista, já posso dar palpite sobre qualquer coisa, saiba ou não do assunto. Romancista é assim: voz e boca do povo. Eu, você e o Antônio Callado, não é?

– Pelo menos inspiração nós temos. Ainda Bem.