O “Povão” ou o “Pavão”? Eleições para o DCE Curitiba da UTFPR

Às vésperas da eleição para a gestão vindoura do Diretório Central Estudantil do campus Curitiba da UTFPR, é preciso observar as prioridades. Concorrendo como chapa única o “Povão” ou “Pavão” nasce com a esperteza de quem até pelo nome já faz a diferença.

A chapa embala o enredo com a proposta de combater a frente ofensiva dos direitos humanos propostos no último pleito eleitoral. Oxalá! Foi boicotado.

Substitui a velha manchete de jornal da violência étnica, racial, contra a homossexualidade  e o mimetismo conservador pela pauta da gestão híbrida participativa.

Está na boca do povo, na rádio corredor e até na mesa do restaurante universitário um programa que procura a aproximação do representante com o seu representado por meio de uma tomada de decisões diretas, proposta defendida sob a forma de convocar Assembleias.

Revisão do estatuto, auditoria do xérox, acessibilidade e fiscalização da gestão administrativa do campus são metas a fim de importar rigor ao caráter autônomo e não soberano, como deve ser, na universidade pública.

Na sabatina da última quarta-feira a transparência do processo eleitoral faz inveja até ao Conselho Universitário, que não soube gerir de forma adequada a eleição para reitores e ainda assim rejeita a criatividade da juventude. Azar o deles!

A paridade eleitoral é a única solução real. Está na hora de atualizar o roteiro pois, em síntese, o problema trata-se de uma universidade presa a regras do século XIX preparando mentes para o século XXI.

Até os contratos de aquisição das propriedades e a transferência a toque de caixa para o ‘Neolonge’ vieram à baila.

Falta espaço no espaço, é o soneto do Romano. O que dizer do primeiro campus universitário a entrar para o negócio imobiliário? Propriedades caríssimas desocupadas enquanto os programas que dão vida à Universidade se abalroam pelo metro quadrado. É a miopia de quem só conhece o gabinete.

Por hora vamos exercer o voto, não como mero requisito estatutário, mas como uma forma de definir o rumo quisto pelo diálogo.

 

 

 

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Documentário da UTFPR discute a Inclusão Étnica e Social

Moço, não abro mão dos meus direitos
Eu também tenho o meu conceito
No universo da criação
Mentes são dotadas de virtudes e poder
Basta abrir as portas verá florescer
Um mundo, onde a magia formas os ideais
E o saber, não se difere por camada sociais
É hora de reflexão
E consciência em cada coração

Educação: Um salto para o Futuro  –  Por Paulo Freire

Leandro de Itaquera (1999)

O Brasil acordou com manchetes conhecidas. O PMDB assume a presidência sem o voto popular direto, o leite de pacote está na moda e o Palmeiras ocupa o topo do campeonato brasileiro. Não! Não estamos no ano de 1993.

A lista de medidas do governo federal promete cortar em 47% o orçamento das universidades públicas federais, seguida pela “otimização da relação empregado e empregador”, com “contratinhos” que permitem maquiar a impressão da falsa empregabilidade, com férias e 13º salário proporcionais aos dias trabalhados.

A conciliação de classes parece que não foi uma jogada certeira. O republicanismo só dá certo no Congresso Nacional, no chão de fábrica o soneto é outro. Continuamos na espiral do tempo e o samba enredo ocupa a avenida para contar o momento.

O “pacote de bondades” de Michel Temer, coloca em risco  a autonomia invocada na Carta Magna por uma falsa tutela.

Lembrou o ex-ministro e professor da USP Janine Ribeiro, o fla-flu PT e PSDB acabou, é hora de rever onde estamos na espiral do tempo e quais riscos são certeiros.

Nestas horas, o que se pode esperar de uma universidade que estava em vias de construir um projeto plural? Em que os historicamente excluídos pela ciência e pela tecnologia conseguem pela primeira vez  afirmar sua existência e adentrar os espaços pela equalização de oportunidades?

O documentário “A Marcha da Inclusão” invoca esta e outras questões que apresentam o contexto institucional nas universidades brasileiras, com ênfase na Universidade Tecnológica Federal do Paraná, e apela para o futuro.

A matéria, organizada e dirigida por componentes do Programa de Educação Tutorial em Políticas Públicas, reúne professores, alunos e especialistas do setor educacional, dentre eles a Doutora em Política Científica Nanci Stancki da Luz, o Doutor em Sociologia Lino Trevisan e a militante Nabylla Fiori.

A doutora em psicologia Maria Sara de Lima Dias ressalta números acerca do perfil do egresso da UTFPR e acusa, em partes, a ação excludente direta dos professores em sala como um agente complicador da afirmação da inclusão étnica e social.

A Doutora Nanci, ressalta ainda a dependência da política de cotas com a realização de ações objetivas como investimentos, mas também subjetivas como a manifestação popular.

O documentário, exibido na íntegra durante a X Semana de Políticas Públicas, conclui com a fala do homenageado Paulo Freire. Freire foi intenso defensor da universidade para as classes mais vulneráveis em troca da cultura classista excludente.

 

 

 

 

 

 

O Darcy de Lispector

Entrevista concedida pelo educador Darcy Ribeiro em 1977 para a jornalista Clarice Lispector. Publicado em  Clarice na cabeceira: jornalismo. 1º edição. Rio de Janeiro: Rocco, 2012. 

 

É autor de uma dúzia de livros sobre as desventuras dos índios desde que os brancos chegaram a este país.

Mas agora está estudando uma tribo muito especial: a dos brasileiros. (Atenção, ele já foi ministro da Educação.)
Darcy Ribeiro nasceu sob o signo do Escorpião numa cidadezinha do centro do Brasil que hoje – diz ele – só existe em seu peito: Montes Claros, Minas Gerais. Quis ser médico porém acabou antropólogo. Como tal, conseguiu uma vez um emprego que lhe proporcionou, segundo sua própria expressão, os melhores anos de sua vida. Dormia em rede nas aldeias indígenas do Amazonas. Mais tarde se tornou professor, num esforço para formar melhores antropólogos. Um dia o nomearam educador e, nessa qualidade, projetou um novo modelo de universidade para Brasília.
Mas, afinal, o que faz um antropólogo? Há muito tempo, fiz um curso pequeno de antropologia, mas não prestei atenção nas aulas porque tinha outros interesses; os interesses de uma adolescente. Darcy Ribeiro agora me explica:
“Um antropólogo, Clarice, estuda gente. Zoólogo estuda bicho. Entomólogo estuda percevejo, suponho. Eu estudo as pessoas: gente comum e também índio, negro africano. Tudo que é gente me interessa: os brasileiros, os franceses, os xavantes, os guaranis.”

– É possível misturar francês com xavante? Dá pé?
Claro que dá. O difícil é concluir alguma coisa porque não se pode tirar média. Mas tudo dá pé. Inclusive inglês com sergipano. Eu estudei índio durante anos. Depois peguei os povos americanos. Atualmente, com base naquelas experiências, estou estudando nós mesmos, os brasileiros.

– Porque você quis estudar índios?
Não há quem estude borboletas? É para saber, ora. Formei-me em São Paulo. Podia ser historiador, mas não gosto de velharias. Podia ser também sociólogo, mas naquele tempo ninguém sabia o que era isso. Não havia emprego de sociólogo. Então, apareceu um lugar de etnólogo no Serviço de Proteção aos Índios. Aceitei. Muita gente pensou que eu ia era amansar índio. Não ia, não. Fui dos primeiros brasileiros que se meteu no mato para estudar. Antigamente chamavam a gente de naturalista. Quase todos eram geólogos, botânicos e, em sua maioria, eram estrangeiros. Etnólogo mesmo, profissional e brasileiro, fui o primeiro. Contrataram-me para estudar etnologia indígena, que é apenas um ramo da antropologia. Há outros. Paleontólogos estudam fósseis de antepassados comuns dos homens e dos macacos. Raciólogos medem gente de todas as raças para descobrir-lhes as semelhanças e diferenças. Arqueólogos estudam tribos ou civilizações desaparecidas. Linguistas descrevem e comparam as línguas faladas no mundo. E os etnólogos estudam os costumes dos povos atuais. Os mais rígidos ficam só na especialidade: são fanaticamente paleontólogos, arqueólogos, etnólogos. Os mais flexíveis fazem antropologia, visando melhorar a qualidade do conhecimento que existe sobre os homens em geral.

– Você é fanático ou…
Eu sou ou… Pode ser até que eu seja um antropólogo ruim. Mas não. Modéstia à parte, não sou dos piores. Escrevi uma boa dúzia de livros. Destes, uns oito estão à venda, em cerca de 30 edições feitas no Brasil, Portugal, México, Argentina, Venezuela, Espanha, França, Itália e Alemanha.

– De que tratam esses livros? O que contam ou explicam?
Os primeiros retratam minha experiência de campo nas aldeias indígenas, tanto no Brasil Central como na Amazônia. Uns são de etnologia, propriamente. Por exemplo, meu estudo Religião e mitologia Kadiueu, uma tribo lá do Pantanal, ou Arte plumária Kaapor, uma tribo do Pará. Outros, também etnólogos, são de análise e denúncia das desventuras dos índios que toparam com os brancos. Por exemplo, Os índios e a civilização. Este livro está sendo muito traduzido por aí…

– Você chegou a conviver com os índios selvagens, nas aldeias deles?
Passei um tempão nisso. Vivi deitado em rede ou acocorado em esteira de índio, conversando, observando, anotando, pelo menos a metade dos dez melhores anos de minha vida.

– Foi tão bom assim?
Sempre que se fala de ir para os índios, para o mato, para a selva, o pessoal fica pensando em cobra, onça, malária, flechas e outros riscos. Que nada! Sei que não é um passeio, mas é uma beleza. E foi com os índios que aprendi a ser antropólogo. Assim como médico aprende a ser médico com os clientes, depois de formado. Só que nunca matei ninguém…

– Por que, então, você saiu para outra? Gostando tanto daquela vida, gostando tanto de índio, podia ter ficado na etnologia.

É. Podia. Mas o que me atazana mesmo é estudar esta tribo mais exótica e mais selvagem que somos nós, os brasileiros. Essa é a tribo que me interessa. Um dia, Anísio Teixeira me chamou para estudar a sociedade nacional, com vistas ao planejamento educacional. E eu aceitei. Não me arrependi. Promovi uma quantidade de estudos sobre a vida urbana e a rural, sobre a cultura popular, a industrialização e a urbanização. Nesse caminho, tornei-me educador. Acabei incumbido de criar a Universidade de Brasília. E criei mesmo. Mas fui adiante. Cheguei a ser ministro da Educação.

– Darcy, fale mais sobre os seus livros. Os que estão vivos por aí, correndo mundo.
Bem, os meus principais livros foram uma série chamada Estudos de antropologia da civilização. São cinco volumes e somam mais de mil páginas. Quase todos foram publicados no Brasil. O primeiro deles, O processo civilizatório, é uma tentativa de reconstituir os caminhos da evolução das civilizações, de uma perspectiva nossa, de povos marginalizados, dependentes. Seu tema é a análise das causas de nosso desempenho medíocre dentro da civilização industrial moderna e do risco, em que estamos, de continuar sendo povo de segunda classe na civilização que vem aí.

– São livros muito lidos?
Muita gente leu esse livro, Clarice. É o meu único livro de êxito popular. Venderam mais de 170 mil exemplares, em inglês, espanhol, italiano, alemão e português. Também pudera: faço um resumo de 10 mil anos de história em 200 páginas. O segundo volume daquela série é As Américas e a civilização. Um painel do processo de formação dos povos americanos. Escrevi tentando entender – e ajudar os outros a compreender – as causas do desenvolvimento desigual dos povos americanos. Por que a América do Norte, colonizada um século depois de nós, está um século adiante em tanta coisa? E como é que povos pobres, que nem nós, podem custear a riqueza de povos ricos?

– Você está se arriscando a falar em política?
Não, é apenas antropologia. O terceiro livro da série ainda não está publicado no Brasil, embora tenha várias edições no estrangeiro. É O dilema da América Latina, um estudo da composição das classes sociais dos nossos países que serve de base a uma tipologia dos nossos regimes políticos. Tudo isso é antropologia e da boa: ciência positiva do que o homem é e especulação humanística do que poderia ser, se tivesse juízo. O quarto livro é mais ortodoxo, chama-se Os índios e a civilização. É um balanço científico e apaixonado do que sucedeu aos índios brasileiros no curso de século XX. É uma história muito feia. Eu mostro que em 1960 haviam desaparecido 87 das 230 tribos que existiam em 1900. Não por assimilação, ou incorporação, como se diz por aí, mas simplesmente extintas pelas enfermidades, pela opressão e pela pobreza a que foram e são submetidas, em nome da civilização.

– Seria melhor estudar borboletas ou colecioná-las. Ou então você poderia não ter tanto trabalho e tanta paixão e cultivar orquídeas… E o último volume?
Ainda estou batucando: Os brasileiros. Até agora só publiquei a primeira parte, chamada A teoria do Brasil. Faltam duas outras: O Brasil rústico e O Brasil emergente. Espero ter tempo (e gana) para escrever os dois. Na verdade, os outros quatro livros da série são apenas uma longuíssima introdução a Os brasileiros.

– Você não acha péssimo para nós essa história de dizer que são vivos os livros só porque estão à venda?
Acho. Mas eu vivo disso, e você também. O que nos interessa a glória que nos tributem lá pelo ano 2000? Seremos menos que pó de caveira.

– Também não me interessa nada do que a posteridade diga de mim, se é que vão dizer alguma coisa. E fora dessa série, que é que você tem publicado?
Bem, tenho alguns livros que prezo. Um é A universidade necessária. Uma utopia da universidade que tento há anos cristalizar nas diversas universidades concretas que já projetei ou reformei aí pelo mundo. Outro livro, é Uirá, uma coletânea de artigos de etnologia indígena. Inclui a história real e fantástica de um índio que saiu à procura de Deus. E acabou mal. Morto. Comido por piranhas. A história foi filmada por Gustavo Dahl.
Pois é, Clarice. A tentação me roía há anos. Não resisti. E gostei muito. Foi um barato meter num enredo o meu sentimento de gozo de viver e da tristeza que é ser índio neste mundo. Creio também que escrevi um romance para ser intelectual.

– Eu sou romancista e não sou intelectual…
Só os romancistas são intelectuais… Agora, como romancista, já posso dar palpite sobre qualquer coisa, saiba ou não do assunto. Romancista é assim: voz e boca do povo. Eu, você e o Antônio Callado, não é?

– Pelo menos inspiração nós temos. Ainda Bem.

A Assessoria de Assuntos Estudantis da UTFPR é autuada pelo Ministério Público Federal

Eu pergunto a você
Onde vai se esconder
Da enorme euforia?

Chico Buarque de Holanda (1970)

Me perguntaram como está a Assessoria de Assuntos Estudantis. Respondi que está de recesso. Pena que este recesso vai fazer aniversário.

De folga, ou não, terá que responder a denúncia protocolizada por discentes da Universidade Tecnológica Federal do Paraná sobre as irregularidades no processo seletivo do Auxílio Estudantil do Edital ASSAE 001/2016, bem como ações temerárias inerentes aos outros processos.

No item c, a manifestação comprova a repressão ao movimento estudantil utilizando como instrumento a rigorosidade na fase de análise documental.

Nos semestres anteriores, dados os mesmos dispositivos do Edital ASSAE para o PROCESSO DE SELEÇÃO AO AUXÍLIO ESTUDANTIL DA UTFPR, os assistentes sociais e coordenadores dos Núcleos de Acompanhamento Psicopedagógico de cada campus, responsáveis pela análise documental, realizavam durante o processo de análise dos recursos a complementação de documentos faltantes, mesmo sendo prevista a cláusula que diz no item 9.6: “V. O prazo de recurso não é destinado a entrega de documentação mínima obrigatória faltante, ou seja, que não foi entregue dentro dos prazos estabelecidos nesse Edital”. Este fato produziu a cultura dos alunos em realizar a complementação documental durante o período de recurso. No primeiro semestre de 2016 esta prática não foi possível por orientação vertical da reitoria, haja vista as negociações (conforme a notícia em mídia em anexo) do corpo estudantil contra o não pagamento das bolsas previsto e retificado no Edital ASSAE 001/2016 nos meses de abril e maio, e sim retroativamente na segunda quinzena do mês de maio. Registramos que este rigor nunca, em outra época, foi utilizado na fase de análise documental e somente no cenário de protesto dos estudantes tal métrica foi aplicada.

A manifestação foi protocolada no Ministério Público Federal no dia 04 de maio de 2016 e arrola 13 pontos de irregularidades. Dentre eles, as 27 modificações realizadas no edital ASSAE 001/2016, ainda que encerrado o prazo de inscrições. O texto da denúncia interpela no item g :

Foram realizadas 27 modificações no Edital ASSAE 001/2016 incluindo datas, procedimentos, fontes, distribuição dos recursos e indicadores do índice de vulnerabilidade, antes e depois das datas de inscrições e, 3 dias após o encerramento do prazo das inscrições, a inclusão dos discentes de pós-graduação (mestrado) sem fazer referência a qual recurso seria aplicado.

[…]

Questiona-se aqui os princípios da eficiência e da legalidade do edital. Entende-se que as normas do edital são modificadas de acordo os interesses a fim de eximir, em qualquer tempo, as responsabilidades jurídicas da reitoria. As modificações ocorrem rotineiramente antes e depois do prazo de inscrições, e acabam por prejudicar os discentes partícipes ao longo do processo.

O texto escancara o opróbrio. A Reitoria utiliza-se dos editais para melhor obter benefício nos embaraços judiciais, e sempre argumenta que “o jurídico é que dá o aval”, como se este grupo não fosse braço da atual gestão.

A assessora Vanessa Rasoto, que em breve assumirá, ou não, o cargo de vice-reitora, demonstra, com isso, a má gestão frente ao organismo. O desleixo é retrato do óbvio: a assessoria é um quintal para agregar os amigos de boteco do reitor.

Ainda, a assessora, sabendo da possibilidade de um edital emergencial optou por não fazê-lo e assim reduzir o impacto do problema. Preferiu guardar o recurso a aplicá-lo.

A inclusão passou longe. No item j,  o texto lembra dos efeitos produzidos pelo pagamento retroativo das bolsas dos alunos calouros.

O pagamento retroativo em cerca de 45 dias do auxílio estudantil para os alunos calouros, previsto no Edital ASSAE 001/2016. Os atrasos constituem imperativo para a evasão e a exclusão social, dada a inexistência de condições mínimas para a dedicação integral do aluno, sobretudo com a dimensão de alunos que migram para este Estado Federado, e neste benefício encontram suporte para a dedicação ao ensino, pesquisa e extensão.

Lembra ainda que o uso dos recursos no âmbito do Programa Nacional de Assistência Estudantil (PNAES) são de caráter preventivo e não corretivos, posto o atraso de 45 dias, com dinheiro em conta sinalizado pelo Ministério da Educação, na página oficial.

O despacho da manifestação foi realizado pelo Procurador João Gualberto Garcez Ramos no dia 12 de maio de 2016, junto ao Procurador da República dos Direitos do Cidadão. O documento 4772/2016 reconhece as irregularidades inerentes ao processo e sinala a admissibilidade da denúncia junto ao Ministério Público Federal.

A Universidade Tecnológica Federal do Paraná, bem como a Assessoria, foram autuadas no dia 13 de maio de 2016 por meio do procedimento preparatório número 1.25.000.001702/2016-51.

Espera-se, neste contexto, a apuração dos fatos e a realização de medidas mitigadoras dos efeitos produzidos pela morosidade e pelo desleixo no cuidado dos assuntos estudantis.

Não se pode, sob esta circunstância, culpabilizar a “crise”, como a Assessoria tem feito. Nem mesmo, emitir notas acusando a greve dos servidores, denúncias junto ao ministério público e inclusive a falta de servidores. Este soneto não embala mais. É hora de inventar algo melhor do que algumas mentiras de campanha.

Enquanto isto, na Tupinicópolis, a partir de amanhã, alunos em condição de vulnerabilidade social terão os benefícios de alimentação, auxílio básico e auxílio moradia suspensos, sem qualquer intervenção da Universidade, ainda que dotada de recursos exclusivos das políticas de governo para tal.

Em Curitiba foram indeferidos 63,49% processos, em Dois Vizinhos 68,04%, em Francisco Beltrão 59,41%, e em Ponta Grossa 44,41%. Curitiba segue no topo da lista com 1.364 alunos sem contar com os benefícios para os próximos meses.

O mais intrigante é que a Assessoria de Assuntos Estudantis, alterou as datas de análise dos recursos do Edital 001/2016 a fim de que os indeferimentos não atrapalhassem a campanha da chapa de situação. A manobra clássica, reprimir e colocar para fora os que questionam o modelo de gestão, sobretudo, os mais vulneráveis.

Eis aí o resultado do projeto de “classe mundial”. O horror, certamente, está entre nós.

Crime e Vício: a condição histórica da violência contra o homossexual

“(…) cada sociedade exige uma dose de representação. “

“(…) o papel dos anormais era exibir sua anomalia.”

Hannah Arendt, 1949

O retrato dos homossexuais na história, por mais nababesco que possa parecer,  esquece de contar a violência psíquica, física e a rejeição de homens e mulheres.

A historiadora política Hannah Arendt, em sua obra mais famosa The Origins of the Totalitarism [1], apontou, mesmo que rapidamente,  as condições históricas para o estabelecimento do ódio nazi-fascista contra os homossexuais.

Apesar do homem judeu ser o retrato à la fin du dix-neuviéme siécle do homossexual para o entretenimento dos salões da aristocracia francesa, a história guarda a certeza de mulheres que sofreram o mesmo ódio inerente às atrocidades cometidas em nome da ‘boa genética’.

Para Arendt, diferente da seleção e do racismo sofrido pelos negros e ameríndios nas rodas políticas europeias, que encontraram justificativa por razões históricas, o ódio contra o homossexual nasceu capitaneado pela pura acepção biológica, a guerra do homem natural contra todos os homens naturais.

Em tese, o medo nascia da vontade de expurgar uma “anomalia genética” da política, jamais rejeitada nos teatros e nas graças dos salões de Faubourg Saint-German.

O ‘homem travestido’ era uma peça ironizante, condizente, apenas, com a fantasia que acompanhava as damas e dormia com os cavalheiros.

Era lícito na França do século XIX, como o era no Brasil de Lucíola (José de Alencar), estender a relação monogâmica do pai de família, para o quarto, no fundo do quintal, do homossexual. Era uma sociedade sadista, que via neste grupo apenas as fantasias eróticas, excluídos em todos os outros espaços, na ciência, na tecnologia, na educação e na política.

Tudo isto faz parte da condição histórica de representação daqueles, que pela condição de um tratado supostamente teórico, foram expurgados quimicamente com a ascensão do projeto da Alemanha imperial.

Enganam-se os que acreditam que este ódio nasceu com o militarismo alemão.

A regra de morte aos homossexuais nasceu muito antes, um tratado histórico-doutrinário, ainda presente em nossos dias. E continuou muito tempo depois como meio legal na Inglaterra.

Neste contexto, a violência contra este grupo, ressalta Arendt, vem da assimilação do crime em vício. O crime, portanto, se converteu em um tratado no domínio das leis, regido pelo vício da violência. O mesmo perigo beira nosso tempo com retrocessos movidos em nome de Deus e da família.

“Ao assimilar o crime e transformá-lo em vício, a sociedade nega toda responsabilidade e estabelece um mundo de fatalidades no qual os homens se vêem enredados.” [1] Arendt, p. 103

A conversão do crime em vício, da violência em um tratado legal, transformou o efeito devastador da morte e do assédio em uma fatalidade consentida.

“A perversidade humana, quando é aceita pela sociedade, transforma-se, e o ato deliberado assume as feições da qualidade psicológica inerente, que o homem não pode escolher nem rejeitar, que lhe é imposta de fora e que domina de modo tão compulsivo como a droga domina o viciado.” [1] Arendt, p.103

Com um salto temporal, saio dos salões franceses do século XIX e adentro às ruas brasileiras do século XXI.

“É um vício matar gays”, lembrou a mãe, ao ver o filho morto na esquina de uma favela do Rio de Janeiro. São tempos difíceis, a negação é o próprio consentimento com a violência historicamente posta.

Tem-se se tornado frequente ouvir figuras públicas com o discurso de violência contra gays, lésbicas e transsexuais. É a total perversão da coisa política, já que nestes discursos não existe espaço para a própria rethorica

A proteção da vida, como razão sine qua non da política, está ameaçada. Os resultados, no entanto, já demonstram um perfil bem claro do que este discurso intolerante é capaz.

O trabalho do antropólogo Luiz Mot vem acompanhando notícias e registros de violência contra homossexuais desde 1980. De 2009 para 2016 os índices cresceram 31%, ainda que as políticas públicas estejam alinhadas no seu combate. Lembra o pesquisador que “o risco de um homossexual ser assassinado no Brasil é 785% maior que nos Estados Unidos”.

O Estado de São Paulo lidera a lista do número de assassinatos, com 55, no relatório de 2015 do Grupo Gay da Bahia (GGB). No Sul parece haver um suspirar, são 0,8 homicídios por milhão de habitantes, quando comparado com o Norte, com o índice de 2,9 assassinatos por milhão.

Mesmo com a elevação dos índices de educação de base, no governo Lula  havia  163 assassinatos por ano em média, no governo Dilma foram registrados 312 assassinatos na mesma categoria.

De fato, ganhamos no acesso à informação e à educação, mas perdemos na arena política. No Dia Internacional contra a Homofobia é importante lembrar que toda a ideologia que queira criar raízes e florescer precisa estar plantada sobre a coisa política e não conviver apenas como um doutrina teórica.

Curitiba, 17 de maio de 2016

Querelas do Brasil

Dormia
A nossa pátria mãe tão distraída
Sem perceber que era subtraída
Em tenebrosas transações

Chico Buarque de Holanda

A tragédia dos estudantes, esquecidos pela forma de gestão e órfãos de representantes, parece encontrar um novo contexto nas mobilizações que se programam em todos os cantos do Paraná.

É uma reação ao autoritarismo como regra de convívio em uma Universidade que nasce no contexto de um projeto desalinhado com todos os segmentos internos. 

Não podemos competir, no entanto, com a arte do teatro providenciado por Vanessa Rasoto e Luiz Pilatti, um dupla sertaneja, sem melodia nem harmonia.

Na tarde desta sexta-feira, sem razão para estar, a Assessora de Assuntos Estudantis, decidiu, no laço, participar da reunião com as entidades estudantis em uma reunião com o Núcleo de Acompanhamento Psicopedagógico do campus Curitiba.

O intento era efundir, como de costume, um discurso pífio sobre o fato da reitoria, com seu modus operandi, ter excluído além da metade os alunos em condição de vulnerabilidade do programa de assistência estudantil.

A querela, sempre a mesma: “o governo está crise”. Logo, a universidade também está. A má notícia interpretada pela assessora, que no caso do ‘desemprego’, se tornaria pró-reitora, era de que “as coisas irão piorar”. O bom informe é que seguiremos rumo à classe mundial.

No tom da conversa parece até uma ameaça, não pelo fato da crise institucional e econômico-financeira que  o governo enfrenta, mas por não haver motivos de desesperança. É sabido, pelas fontes de repasses do governo federal, que não ocorreram cortes na assistência estudantil. No entanto, a assessoria insiste em manter a querela de que faltam recursos. É de conhecimento geral, também, que do montante destinado à UTFPR, o número de bolsas concedidas está abaixo dos repasses totais.

Para tentar ocultar os escândalos, a publicidade de aplicação interna dos recursos estão nubladas, uma total merencória.

Enquanto isto, alunos dormem sem ter a expectativa de que terão moradia, alimento e transporte para poder dar continuidade ao ensino-aprendizado. Onde habita, neste sentido, a equalização de oportunidades na educação superior invocada na Constituição da República Federativa do Brasil de 1988?

É um projeto funesto, exterminar os mais frágeis no intuito de lotear o organismo estudantil vivo.

No campus Curitiba, dos 1.364 processos totais em solicitação do auxílio estudantil, 866 foram indeferidos (63,49%). Em Dois Vizinhos a soma cresce, os indeferimentos atingiram 68,04%. Os demais, como Apucarana, Campo Mourão, Ponta Grossa e Francisco Beltrão beiram os mesmos números. No panorama geral destes campus, 58% terão seus benefícios negados.

Se fazem isto com os estudantes, o que não hão de fazer com a Universidade?

No país em que apenas 15,1% da juventude na idade própria ocupa cadeiras nos cursos de graduação, é vergonhoso veicular que se trata do “puro assistencialismo”.

Não trata-se apenas da vulnerabilidade de renda, mas de fornecer subsídios para que esta pequena parcela pratique o ensino, a pesquisa e a extensão, que contribuem direta e indiretamente para a formação das bases sociais que não podem ingressar no ensino superior.

A norma é clara, a vara é dura, apanha quem chora mais.

O Conselho Universitário fechou os olhos, apagou as luzes e retirou-se para os aposentos. A pauta da próxima reunião será a lista tríplice, nada mais, até porque é preciso aprovação da maioria dos conselheiros para incluir qualquer outra pauta.

Um fato curioso, no entanto, chama a atenção. No dia 15 de abril de 2016, 12 dias anteriores à pesquisa para reitor, a reitoria decidiu transferir o período de análise dos recursos dos dias 25 a 29 de abril, para os dias 27 a 29, a fim de que a publicação dos resultados não afetassem a campanha da chapa de situação. Uma conduta lamentável e que torna ilegítima esta campanha no domínio das condutas.

Os estudantes não tem voz, nem voto, a representação é um mero detalhe no cenário das pautas estudantis sendo fragmentadas e minorizadas à luz dos escândalos de improbidade e morosidade.

Negar a pauta histórica de forma tão biltre explora o perfil gerencialista da Universidade que teremos nos próximos quatro anos. É preciso evitar a sedução.

Espero a promessa aos Corintos: a justiça será paga com a justiça.

 

Os resultados alarmantes da pesquisa para reitor da UTFPR

A diferença percentual ponderada de 3,48% entre o candidato da Chapa 1 (Schieffler) e o candidato da chapa de situação (Pilatti) preocupam, sobretudo pelo extrato de descontentamento entre servidores e estudantes nos 13 campus a partir da publicação dos resultados.

Se o processo de pesquisa, publicado ontem pela comissão responsável, fosse submetido a uma banca de doutoramento certamente dúvidas inerentes aos resultados seriam levantadas. Não há como negar a lisura e a idoneidade de como o processo foi conduzido, ainda que no viés tecnológico um convênio com o Tribunal Superior Eleitoral adiantasse em muito os resultados, bem como sua confiabilidade.

Como toda  pesquisa, apesar dos métodos e procedimentos serem impecáveis, os resultados podem causar espanto e promover a necessidade de intervenções mitigadoras ou de uma nova medida. O mesmo pode ser dito da pesquisa de consulta da comunidade acadêmica sobre os resultados inerentes ao processo.

No caso da chapa 2, Nanci e Volmir, a diferença percentual ponderada de 8,69%, apesar de maior também preocupa.

Em grande parte o descontamento pode ser explicado pela falta de amadurecimentos dos projetos junto à comunidade acadêmica e pela ausência massiva de técnicos, professores e os alunos durante a consulta.

Ao todo, 15,77% dos servidores nos 13 campus não compareceram à consulta somando um total de 582 votos. 

No maior ‘colégio eleitoral’, Curitiba, os resultados provocam alerta. Dos 10.037 alunos, 74,32% não votaram, optaram por não comparecer em virtude da incipiente discussão e politização de cada programa. Neste campus, a dupla Nanci e Volmir (chapa 2) obtiveram cerca de 58% entre os alunos e na projeção final ganhou dos demais concorrentes.

A chapa 1 obteve 34,85% dos votos e venceu entre os servidores na capital que agora esfria.

Até em casa, a rejeição da chapa de situação é um indicativo do alerta.

No placar geral (de todos os campus) os não comparecimentos somam 74,29% (23.055) ente os estudantes. Em grande  parte alegam não terem comparecido pela falta de conhecimento acerca das propostas e pela campanha “a toque de caixa dos candidatos”.

Entre os servidores, os candidatos de oposição, juntos, venceriam em 6 campus e obteriam, também em conjunto, 58,49%  do apoio de técnicos e professores que compareceram à consulta. Em Campo Mourão 29,41% não compareceram, ou, pelo mesmo motivo dos alunos, optaram pela ausência. No campus Toledo esta proporção foi de 25%.

No ranking estudantil, os campus com menor comparecimento, a saber: Medianeira (90,84%), Campo Mourão (81,59%) e Londrina (81,44%). Os demais seguem com valores entre 56% e 78%.

Na comparação percentual ponderada de votos dos técnicos e professores entre o garoto Forbes (Schieffler) e o Pôncio (Pilatti), a diferença é de apenas 4,10%. Na mesma comparação entre a chapa de situação e a chapa da Hillary Clinton (Nanci) a diferença é de 9,3%.

Entre os alunos, a questão é um pouco mais profunda. Apenas 25,27% dos estudantes presentes aprovaram o projeto de continuidade da chapa de situação. Os outros 74,73% optaram pela mudança, o que resultou em uma diferença de 8 votos entre os candidatos de oposição.

Se a disputa fosse pelo Palácio do Planalto, teríamos um segundo turno. Como trata-se da cadeira de reitor recomendaria uma nova pesquisa e/ou amostragem, uma vez que este é o procedimento ocasional de qualquer cientista tendo em vista os resultados.

Não é uma eleição, está eivada, apenas dos valores de representação, uma vez que não existe a paridade. É uma pesquisa que orientará a decisão dos conselheiros, e como tal pode ter uma segunda edição.

“Casa de ferreiro, espeto de pau”.

Antevejo como justificativa para a não realização de uma nova pesquisa,  que os prazos de encaminhamento são curtos, no entanto, não pode-se lançar mão de uma uma indicação para o ministro sem uma prorrogação de campanha, com nova consulta, à luz dos resultados e de sua posterior análise.

Se eu fosse membro do COUNI ou ministro da educação desconfiaria deste cego resultado e qualquer indicação futura sem uma segunda edição da consulta seria leviandade. No país da preguiça não há que se falar em fazer tudo de novo. Ai, ai!